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Champignons recheados

Luis Fernando Verissimo

Tinham se separado, mas mantinham relações cordiais ou, como as descrevia o Marcelo, “saudavelmente hipócritas”. Encontravam-se para tratar dos papéis do divórcio, da venda do apartamento, etc., e conversavam civilizadamente. O que era surpreendente, já que o casamento terminara com a Helena ameaçando atirar uma frigideira na sua cabeça.

Foi numa dessas conversas civilizadas que a Helena, depois de hesitar, finalmente pediu. Iria receber umas amigas para jantar. Será que o Marcelo poderia fazer os champignons recheados para ela servir?

Marcelo não respondeu logo. Ficou saboreando o momento e pensando em várias respostas que poderia dar. Ah, quer dizer que a frase que voou na direção da minha cabeça junto com a frigideira, “E leve as suas malditas receitas!” foi esquecida? Antes de escolher a resposta, Marcelo ganhou tempo.

- Quem são as amigas?

- Você não conhece.

Marcelo sorriu. Escolhera uma resposta irônica.

- Você ainda tem aquela frigideira?


Combinaram que a Helena compraria os ingredientes e deixaria na sua cozinha. O Marcelo iria lá à tarde, prepararia os champignons e deixaria instruções sobre como aquecê-los, na hora de servir, à noite. Prevendo que Helena banira qualquer coisa que pudesse lembrar as suas “malditas receitas”, Marcelo levou seu próprio jogo de facas de diversos tamanhos para preparar o fricassê com que recheava os champignons. Esqueceu o jogo de facas na cozinha da ex-mulher. Foi buscá-lo na manhã seguinte.


Helena custou a atender ao interfone. Recebeu-o na porta do apartamento de camisola e com cara de sono. Não, não sabia que já eram 11h, fora dormir tarde. Ele tinha esquecido o que mesmo na cozinha?

- Facas, facas.

- Entre.

A mesa do jantar ainda estava posta. Para dois. Duas garrafas de vinho vazias, uma emborcada. Dois copos, dois pratos de sobremesa e um cinzeiro sujos.

- Era só uma?

- Uma o quê?

- Amiga.

- Ah. Sim.

Helena ficou em silêncio. Marcelo fez um sinal com a cabeça na direção do quarto de dormir. Perguntou:

- Ele ainda está aqui?

- Não! Só jantou e foi embora. Eu não...

- Muito bem. Então eu preparei o alimento para você dar a outro homem. Fui o fornecedor no meu próprio corneamento.

- Ninguém corneou ninguém, Marcelo. E eu recebo quem eu quero e dou comida para quem eu quero!

- Os meus champignons recheados, não senhora!

- Pois quer saber? Ele odiou!

- O quê?!

- Odiou. Disse que já comeu muito melhores.

- Ah, é? Ah, é?

No fim daquela tarde, Marcelo telefonou para Helena. E pediu:

- Convida ele de novo.

- Quem?

- O cara de ontem.

- Eu não!

- Convida, Heleninha. Pensei em fazer meu suflê de quatro queijos.

- Eu não tenho a menor intenção de convidar ele pra jantar outra vez.

- Pô, Heleninha. Ele merece outra chance. E eu também.


A Helena cedeu. Só não aceitou o pedido do Marcelo para ficar escondido na cozinha e espiar o homem comendo o seu suflê e talvez gemendo de prazer. Perversão, não.


Domingo, 10 de agosto de 2003.



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